Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta António Carvalho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Carvalho. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Guiné 61/74 . P28352: Nomadizações de um marginbal-secante (Luís Graça) (19): a "Venda" na literatrura portuguesa dos séc- XIX e XX - Parte I: De Camilo Castelo Branco a Aquilino Ribeiro








Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.
Texto: António Carvalho (2026) | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. A leitura do excerto antológico do António Carvalho sobre a "venda de Medas" (ou "Emendadas"), em 1944 (*), sugere-me algumas notas, esperando com elas motivar os nossos leitores a comprar e a ler o livro, que nos conta uma história fascinante, a qual pode ser lida como um "thriller", mesmo não o sendo.... E nomeadamenmte as últimas 70 páginas.  (António Carvalho - "3x44: Abel e Caim em Contrapé. Porto: Vida Económica, 2026, 287 pp.)

A venda, misto de  merceria,  taberna e até estalagem (tanto na aldeia como à beira de estrada)  funciona na literatura portuguesa dos séculos XIX e XX como um verdadeiro microuniverso sociológico. 

É o espaço de transição onde o aldeão ou viajante ganha folgo, se cruzam notícias do reino (em depois, república a partir de 1910), se acertam contas, se bebe o vinho verde ou maduro, e onde também se namora ou se cruzam olhares cúmplices e bilhetinhos de amor, e se geram contendas e bisbilhotices locais, enfim, também o sítio onde se recebe o correio e até jornais.

Antes de dar o lugar a alguns dos nossos clássicos da literatura portuguesa, recordemos aqui a prata da casa: 

  • o Joaquim Costa também aqui já publicou um texto delicioso sobre a venda da sua aldeia minhota (**);
  • e o nosso saudoso António Eduardo Ferreira (1950-2023) escreveu sobre a taberna da sua aldeia de Moleanos nos anos 50 (na verdade, um "venda", já ali se vendia também quase tudo o que as pessoas necessitavam para o dia a dia, desde o acúcat e o café,  "para fazer na cafeteira",  ao petróleo e ao bacalhau (***).

2. Vamos então, de relance, (re)descobrir o que os nossos escritores, desde o séc. XIX, têm dito sobre a "Venda", um lugar que faz parte do nosso imaginário e das nossas vivências de meninos e moços (não podíamos frequentá-la, era reservada aos "homens feitos", mas íamos  lá fazer "recados"). 

Não queremos nem podemos ser exaustivos, é apenas uma amostra que nem sequer tem a veleidade de ser antológica. (****)

Recorde-se que, embora o comércio se começasse já a especializar quando nascemos, em muitas aldeias e vilas do Portugal profundo, a venda, misto de mercearia, tasca e até pensão ou estalagem, ainda chegou até  pelo menos ao 25 de Abril de 1974, nomeadamente no Norte e Centro do País.  Uma  ou outra ainda chegou aos nossos dias: é caso, por exemplo, da "Venda, Taberna e Mercearia", com sede em Grândola.


Camilo Castelo Branco
(Lisboa, 1825 - São Miguel de Seide, Famalicão, 1890)

Camilo Castelo Branco:  a "Venda" romântica e passional

Em Camilo, a venda é muitas vezes palco de encontros clandestinos, pousada de caminheiros e cenário de confrontos impulsivos entre fidalgos de província e camponeses. Aparece sobretudo como espaço rural, de memórias e costumes tradicionais. Ponto de encontro. Local central para o convívio e o comércio local. Espaço de intriga e retrato social.

  • A Brasileira de Prazins (1883):

(...) "Estava na venda do Manuel da Eira um rancho de rapazes a beber e a tocar violas. O vinho tinto de Amarante espumava nos quartilhos de barro vermelhos. À porta, a estalajadeira tirava da frigideira as fatias de presunto que chiarão no azeite a ferver, espalhando pela estrada um cheiro apetitoso que fazia parar as almocreves." (...)

  • Amor de Perdição (1862): 
Nas passagens onde Simão Botelho viaja clandestinamente, as vendas da Beira e do Douro surgem como pontos de abrigo escuro, onde os segredos de família e as conspirações trocam de mãos ao balcão.


Eça de Queiroz (Póvo do Varzim, 1845 - Neuilly-sur-Seine, França, 1900)


Eça de Queiroz:  o  realismo dialético do campo e da cidade

Em Eça, a venda, a taberna e a merceria ganham o detalhe realista. Mas tendem a ser espaços diferenciados, sobretudo a mercearia, que surge como lugar quotidiano mas urbano, não só de compras e vendas mas como de intrigas e rotinas, enfim símbolo da vida burguesa lisboeta.

  • Alves & Cia (1885, 1925)

A mercearia é um elemento recorrente, associado à vida urbana e aos costumes burgueses, onde se misturam o lado pessoal e o lado profissional.
  • O Crime do Padre Amaro (1875):
 Eça também descreve tabernas e lojas como espaços de convívio e crítica social. 

De qualquer, estas três instituições (venda, taberna,  mercearia) servem para ilustrar o contraste entre a rusticidade das gentes do interior e a sofisticação (ou afetação) da capital.

  • A Ilustre Casa de Ramires (1900): 

(...) "Ao fundo da calçada, na Venda do Pintor, sob a parreira fresca, dous almocreves descansavam, com os alforges no chão, bebendo em tigelas de louça branca. Gonçalo deteve a égua para lhes perguntar pelas novas de Oliveira e se vira passar o regedor..." 

Gonçalo Mendes Ramires, ao percorrer as terras de Santa Ireneia e os caminhos de Vila Clara, cruza-se constantemente com estes estabelecimentos rurais,
  • A Cidade e as Serras (1901): 

Na chegada de Jacinto a Tormes, a rusticidade da loja rural e da estalagem da serra sobressai pelo contraste com a opulência parisiense que o protagonista deixara para trás. 


Aquilino Ribeiro
(Sernancelhe, 1885 - Lisboa, 1963)


Aquilino Ribeiro: o vigor telúrico das Terras do Demo

Ninguém retratou a venda com tanta materialidade e riqueza lexical como Aquilino Ribeiro. Na Beira Alta aquiliniana, nas Terras do Demo,  a venda é o coração pulsante da aldeia: misto de comércio de víveres, tribunal popular e centro de intriga política, social  e comunitária. O escritor explora o interior de Portugal, onde a venda é um espaço de transição entre o rural e o urbano.

  • Terras do Demo (1919):

 (...) "A venda do Ti Gregório cheirava a uma mescla azeda de bacalhau seco, sabão macaco, fumo de cera e vinho derramado sobre o balcão de carvalho. Ao canto, junto à arca do sal, os homens da aldeia, de croça aos ombros, discutiam as partilhas dos montes enquanto o quartilho de tinto passava de mão em mão, grosso e escuro como sangue." (...)

  • O Malhadinhas (1922): 

A vida dos almocreves e recoveiros é contada ao ritmo das paragens de venda em venda, onde se come a broa, o queijo da serra e se contam histórias extraordinárias ao serão.

A venda (a taberna, a "baiuca") é um despaço de encontro e conflitos, onde se misturam o tradicional e o moderno. Um local onde se desdobram intrigas familiares e conflitos de classe.

(...) "A venda do Sr. João era o ponto de encontro dos homens da terra: ali se falava de política, de amor, e até de revolução." (...)

(...) Um entrudo, quinta-feira mesmo das comadres, à boca da noite, o Bisagra desafiou-me na venda do Zé Pinto para jogar uma partida de chincalhão. Vossorias sabem: o Bisagra era senhor duma destas galhaduras, mais formosas, compridas e retorcidas como não há memória que andasse armada a testa dum serrano. Mais abundante nem paliteiro com palitos, e assim falada nem a porca de Murça. Tão coitadinho, que seria caridade dizer-lhe ao passar um portal: baixa que marras!

A mulher era fêmea de alto lá com ela, sempre mais frescal que alface, requestada de fidalgo e de padre cura. (..)

(...) – Sou homem conho!... Sou homem!...

Desapareceu e estávamos nós deitando contas à pachouchada, quando se ouviu grande banzé: o Bisagra fora encontrar a mulher com o Padre Antunes de Lousadela e zupava nos dois como em amassadoira de linho. Foi preciso arrancar das mãos o coroado, senão, matava-o. Mesmo assim, ficou com uma sobrancelha deitada abaixo e mais pingou e lastimável que um dos palhaços que, por folgança de carnaval, se tinham esfaldegado no largo naquela quinta-feira das comadres. (...)






Trindade Coelho
(Mogadouro, 1861 - Lisboa, 1908)


Trindade Coelho: a vida aldeã em Os Meus Amores

Nas narrativas rústicas de Trindade Coelho (finais do séc. XIX), a venda é o local da infância e da tradição comunitária. Retrato da vida rural e dos costumes tradicionais.

  • Os Meus Amores: contos e baladas (1891):  

(...) "Na loja da Rosa da Venda arrumavam-se as prateleiras de chita impressa, os lenços de chita vermelha, as garrafas de aguardente e os cartuchos de confeitos. Era um corrupio de raparigas a comprar fitas e de rapazes a pagar a rodada de encharcados." (...)
  • No conto "O Idílio Rústico", a venda surge associada aos dias de mercado e romaria:

(...) "Na loja da Rosa da Venda arrumavam-se as prateleiras de chita impressa, os lenços de chita vermelha, as garrafas de aguardente e os cartuchos de confeitos. Era um corrupio de raparigas a comprar fitas e de rapazes a pagar a rodada de encharcados." (...)

Outros escritores:

Fialho de Almeida: A Cidade do Vício (1881)

A taberna como despaço de degradação moral e crítica à sociedade lisboeta.

Raúl Brandão: Húmus (1917)

A taberna: local de encontros noturnos e reflexões sobre a condição humana.
_______

(Continua)

(Pesquisa: LG + Wikipedia + IA (ChatGPT, Mistral, Gemini)
(Condensação, revisáo //fixação de tecto, negritos, italicos: LG)
____________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 14 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28345: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (40): A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas" (segundo o António Carvalho, autor do romance "3 x 44: Abel e Caim em Co
ntrapé", Porto, ed. Vida Económica, 2026, pp. 33/37)

(**) Vd poste de 12 de fevereiro de 2024 > Guiné 61/74 - P25164: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (25): A mercearia e a taberna da aldeia (Joaquim Costa, Vila Nova de Famalicão)

(...) Eram as duas instituições mais importantes da aldeia: uma alimentava a alma e a outra o corpo (A César o que é de César a Deus o que é de Deus!). Razão pela qual o padre e o dono da mercearia eram as pessoas mais respeitadas na terra. Mais do que a do próprio regedor! (...)


(***) Vd. poste de 5 de novembro de 2023 > Guiné 61/74 - P24824: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (18): a taberna em meio rural (António Eduardo Ferreira, 1950-2023, Moleanos, Alcobaça)

(...) Por vezes, apareciam por lá poetas populares com jeito para cantar ao desafio o que era sempre do agrado de todos.

Quando o álcool já era quem mais ordenava, por dá cá aquela palha, algumas vezes, aconteciam cenas de pancadaria, nada que passado alguns dias os contendores, por iniciativa própria ou com a ajuda de alguém, não resolvessem fazendo as pazes. Chegava a acontecer a alguns ficarem mesmo amigos. (...)

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28345: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (40): A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas" (segundo o António Carvalho, autor do romance "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé", Porto, ed. Vida Económica, 2026, pp. 33/37)












Reconstituição da Venda de Medas, Gondomar, 1944

Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.

Texto: António Carvalho (2026) 

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Amigos e camaradas, é um pedaço de prosa que vale ouro. É uma autêntica pepita de ouro, esta descrição de duas páginas e meio do nosso escritor António Carvalho, o "Carvalho de Mampatá" (ex-fur mil enf, CART 6250, 1970/72, "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp. )




Capa do livro, publicado pela editora Vida Económica, com apoio da Fundação Hermínia Vilar  Ribeiro. Preço de capa (em papel): 16,20 euros (promoção até final do ano).




A "Venda" (misto de taberna, mercearia, pensão, loja, local de encontro e convívio...) teve o seu papel na economia, geografia e história de Portugal. Havia uma Venda em todas as aldeias. E ao longo dos eixos rodoviários. E às vezes em pontos isolados. Deu inclusive nome a diversas povoações: Venda das Raparigas, Venda da Gaita, Venda do Pinheiro, Venda da Porca, Vendas Novas...  

A "Venda" faz parte das nossas geografias emocionais. Remete para um tempo que nasceram e cresceram os nossos pais... E ainda muitos de nós.  É, sem dúvida,  uma das instituições mais fascinantes do património socioantropológico e da geografia humana de Portugal. Antes do aparecimento das redes de distribuição modernas, dos supermercados e dos postos de abastecimento, a venda era o verdadeiro «nó de rede» do mundo rural e do eixos viários de um país, como o nosso,  acidentado (sobretudo a Norte), entrecortado por rios, com uma economia até à II Guerra Mundial, de base agrícola e em grande parte de autosubsistência. 

A "Venda" era uma espaço multifuncional:  operava como entreposto comercial ponto de apoio para o viajante e sobretudo como espaço de sociabilidade,  sobretudo dos homens. Era à "Venda" em muitas terras, de Norte a Sul do país, que chegavam as notícias (o jornal, a rádio), mas também o correio, os boatos, as anedotas...

Na série "Coisas & loisas do nosso tempo de meninos", merece o devido destaque este excerto do livro do António Carvalho, a quem bem podíamos chamar o "etnógrafo de Medas" ("Emendadas", no romance, e que é a história, verídica, de um "brasileiro de torna-viagem", que em pela II Guerra Mundial, depois de 15 anos de vida numa fazendo de café no Estado de São Paulo, regressa à terra, Medas/Emendadas, e torna-se  um bem-sucedido negociante de madeira, carqueja e carvão de choça;  de nome Abel, é assassinado em 1944, a caminho de Avintes, sendo o móbil do crime não apenas os 20 contos que trazia consigo, mas a inveja, a vingança, enfim, um crime em que está envolvido, Caim, outro nome de ressonância bíblica; em 1942, Abel está viúvo, a arranja um vizinha, Micas, mulher de mineiro, como ama de leite dos seus  dois filhos pequenos)... 

Nesta reconstitituição da "Venda da igreja" (e que o autor nos autoriza a reproduzir), o que  nos fascinou, numa primeira leitura, foi   ela aparecer como uma verdadeira instituição social da aldeia.

 Faremos depois uma analíse mais detalhada, na série "Nomadizações de um marginal-secante", deste excerto o livro que andamos agora a reler, em Candoz, em plena época das vindimas. Em homenagem ao autor, nosso querido amigo e e camarada António Carvalho, elaborámos , com a ajuda da IA, a ilustração acima publicada.

Uma nota explicativa rápida: em 1944, ainda não tinha chegado a iluminação pública a Medas. Mas havia a gente a trabalhar, como toupeiras, nas minas do Pejão, cuho início de exploraçáo remomnta a 1884 (do outro do rio Douro: a distância de Medas era de c. 4 quilómetros, que os mineiros da aldeia faziam em geral a pé; quando recebiam o salário, vinham no tejadilho da camioneta, e gastavam mais alguns tostões na "Venda"; era dura e perigosa a vida destes homens, alguns terão morrido de acidentes e de silicose).

A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas"

por António Carvalho 

(...) Micas não gostava nada que o seu homem, antes de chegar da mina do Pejão, se deixasse ficar na venda da igreja, a dar à língua e a beberricar por copo ou caneca, como se não tivesse pressa de entrar em casa. 

Não é que ele lhe batesse ou resmungasse sequer, quando chegava meio avermelhado, mas gastava sempre algum tempo e alguns tostões que lhes fariam falta para outras precisões.

Por esses anos austeros, as vendas eram os estabelecimentos onde os que não tinham terra se obrigavam a mercar quase tudo e os que a tinham compravam apenas o que ela lhes não dava. 

Mas eram também locais de encontro, por onde passavam, no fim da jornada, mineiros e gente de outros ofícios, juntando-se, em inférteis tagarelices, a velhos gastos e tossegosos, antes da última etapa que os levava a casa, a direito ou aos esses. 

Distinguiam-se os mineiros dos outros fregueses da venda cuja porta ficava a meia dúzia de metros das cancelinhas da igreja, pela roupa enegrecida de farruscas, que envergavam dentro e fora da mina. 

Alguns não cuidavam sequer de lavar a cara, depois da jornada de trabalho, como se se sentissem orgulhosos das marcas do seu penoso e insalubre labor, debaixo do chão, sempre sujeitos a perder a vida numa imprevisível derrocada ou explosão de grisu. 

Algumas vezes, quando a hora de saída do turno lhes permitia alcançar a carreira que partia de Rio Bom e passava por Emendadas, lá vinham eles empoleirados, como passageiros de segunda categoria, na cobertura da ronceira camionete pintada de azul e amarelo, bem agarrados ao gradeamento que bordejava todo o tejadilho, de pernas penduradas sobre as vidraças das janelas. 

Assim empoeirados de carvão, não lhes era permitido sujar os assentos lustrosos do autocarro, pelo que se sujeitavam a viajar naquelas condições desconfortáveis e pouco seguras, não obstante pagarem, por inteiro, o bilhete. 

Quando chegavam à paragem da tal venda de Emendadas, desciam aqueles dez ou mais enfarruscados, pela
mesma escada por onde tinham subido, apensa à traseira da camionete. 

Alguns deles apressavam-se a caminho de casa, onde os esperavam tarefas que a força das mulheres não tinha sido capaz de realizar, ou que fosse mesmo,como então se dizia, trabalho de homem. Mas outros faziam da venda uma paragem intermédia, de retempero de energia e animação da alma, antes de se encaminharem para os sítios onde moravam. 

Nesse estabelecimento, onde se vendia de tudo, havia um balcão separando o espaço dos fregueses da área onde se arrumavam, em prateleiras, gavetas e gavetões, os diferentes produtos alimentícios, tecidos, ferramentas e outras coisas precisas. 

Neste espaço do interior do balcão, de uso reservado ao vendeiro, havia ainda uma pipa de vinho verde tinto, por vezes emparelhada com outra de verde branco, de onde ele enchia, com indisfarçada satisfação, por uma chiante torneira de madeira, canecas de vinho, ao ritmo da sede e do vício dos clientes. 

Pendentes sob o teto, um perfeito expositor, havia, pendurados em pregos, toda a sorte de ferramentas, vasilhas de alumínio ou de folha zincada e todos os
apetrechos de utilidade doméstica
, alguns já enferrujados pelo tempo. 

Era sobre esse balcão, onde a pequenada se pendurava furtivamente para ver o que estava para além dele, que o vendeiro, avezado aos gostos e aos bolsos dos
fregueses, dispunha, sobre uma folha de papel mata borrão, um pedaço de broa, uma talhada de toucinho salgado, um punhado de azeitonas, um chouriço que os clientes cortavam com um canivete que traziam no bolso, ou até um cibo de bacalhau seco. 

Essas lambarices vinham sempre acompanhadas de uma caneca de verde onde todos pousavam os beiços, não se podendo assim contar a quantidade que cada um bebia. Era por isso que, algumas vezes, chegavam a casa, cambaleantes. 

Havia sempre três ou quatro homens que se constituíam clientes mais assíduos e ficavam por lá horas seguidas, em poiso certo, numa lambança pegada, fazendo daquele sítio movimentado o centro de dia dos tempos atuais. Eram quase sempre idosos de pouco poderem fazer, padecentes de silicose ou de qualquer outro mal sem cura, que ali se acoitavam. 

Afeitos àquele recanto de convívio, sentavam-se sobre o tampo de uma grande caixa de milho, defronte do balcão que fazia de mesa, levantando-se intermitentemente, cada um, para mais um gole de verde tinto da caneca de cerâmica, até a escorripichar consolado deixando-a repousar sobre a boca, de fundo para o ar. 

Noutras ocasiões, em perfeita comunhão, beberricavam, um a um, por um enorme copo de vidro de meia canada, no qual misturavam vinho, gasosa e açúcar, num gesto que se repetiria em sucessivas rodadas entremeadas por palavrório emaranhado que se ouvia cada vez mais longe. As mãos serviam de guardanapo que passavam pela boca e logo limpavam nas calças de cor já pouco decifrável.

As mulheres também ali entravam, mas pelo tempo estrito de se proverem da despesa para uma semana, que havia de caber numa pequena giga tecida de tiras de madeira de salgueiro que mãos habilidosas de um gigueiro do lugar teciam. 

Cabisbaixas, encostavam-se ao balcão, mas no extremo oposto ao dos homens, fazendo de conta não os ouvirem, pedindo artigo por artigo, baixinho, como se quisessem evitar que se soubesse o que levavam, mesmo que quase todas comprassem o mesmo. 

A vendeira, enquanto o marido aturava mais os homens, ia enchendo, em cartuchos de papel mata-borrão, um quilo de açúcar, um quarto de café de mistura, um quarto de azeitonas e dois ou três quilos de arroz… acomodados numa saca feita de diferentes pedaços de tecido que as mulheres emendavam pacientemente nas suas horas de sesta. 

Havia ainda que encher uma garrafa de azeite para alegrar as batatas cozidas com couves galegas e bacalhau, e outra de petróleo para as candeias, que a freguesa trazia vazias, de casa. 

Não podia faltar, naquele artístico cesto de duas asas, um bacalhau, um quilo de carboneto para o gasómetro e uma barra de sabão para lavar a roupa e ensaboar, sobretudo ao domingo, antes da missa, senão o corpo, pelo menos as partes dele que andassem à mostra. 

Algumas mulheres tinham que levar, também, tabaco e palhetes para o marido, que chegassem para o mês todo. Essas podiam até discordar do vício dispendioso dos seus homes, mas acediam a comprar-lhes os cigarros, porque eles sempre eram homens ou, pior, porque temiam desobedecer-lhes.

Esporadicamente compravam também, na venda onde havia de tudo, um par de socos, dois metros de ganga e uma foucinha de segar erva. 

Só pagavam no fim do mês, quando o marido arrecebia do patrão, confirmando então se os valores parcelares anotados no livro mestre da venda correspondiam aos apontados no seu pequenino livro de capa preta que traziam sempre no bolso de asseado avental escolhido para aquela ocasião. (...)

O pão que [Micas] cozia todas as semanasm era todo do milho que o marido  levantava na cantina damina do Pejãom com as senhas de racionamento a que tinha direito. Sob rava-lhe assim, para vender, a bom preço, o milho que semeava, num campo lenteiro, perto da porta, regado com água da mina. (...) (pp. 33/37)


Fonte: Adapt. de António Carvalho "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026), pp. 33/37. (Com a devida vénia...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
_____________



terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28290: Agenda cultural (900): É já no sábado, dia 29, na Feira do Livro do Porto 2026, que o nosso António Carvalho apresenta, ÀS 16h00, o seu notável romance "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé", 228 pp. de ação e emoção que se leem de um fôlego














Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026) | António Carvalho (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. O nosso amigo e camarada António Carvalho, o "Carvalho de Mampatá",  vai fazer a apresentação do seu romance "3 x 44:  Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp. ) na Feira do Livro do Porto 2026, evento cultural que começou em 21 de agosto e termina em 6 de setembro de 2026.

É organizado pela Câmara Municipal do Porto, nos Jardins do Palácio de Cristal. Conta com a presença de 144 stands,  entre editoras, livreiros e alfarrabistas.

O António Carvalho espera pelos seus leitores, entre eles muitos dos seus amigos e camaradas da Guiné, e muito em especial os da sua tertúlia, o Bando do Café Progresso, além dos seus conterrâneos de Medas, Gondomar. 

Tenho pena de não poder estar presente, apesar do amável convite do autor.  Mas desejo as melhoras venturas para este seu 2º livro, que é mais do que uma promessa, é a confirmação do seu talento literário e do seu fôlego como contador de histórias e criador de personagens.

Local, data e hora:

Jardins do Palácio de Cristal | Lago dos Cavalinhos | sãbado, 29 de agosto de 2026 | 16h00

Além do autor, a sessão conta com a presença de João Luís de Sousa, António Viilar, e Castro Guedes. 

Vd. aqui o mapa da feira, e a localização do Lagos dos Cavalinhos e do stand nº 110 (Vida Económica). 

 Do livro tomo a liberdade de reproduzir, para abrir o apetite do leitor, a "Introdução" (pp. 7/9)

__________________

Introdução

Propus-me, ao longo destas páginas, contar as passadas dos caminhos, ora chãos ora ínvios, por que passaram as personagens desta saga. Às reais apenas dei retoques, às verosímeis moldei-as segundo a fluência da minha imaginação. Todavia deixei que fossem elas as autoras dos seus projetos e trajetos, os quais me limitei a descrever, ao meu modo, sem conhecer ab initio os seus momentos de bonança ou turbulência, de felicidade ou desdita, nem antever até onde elas me levariam, nos seus percursos calculados ou traçados pelas circunstâncias.

O trágico perecimento da personagem principal, roubado à vida ainda vigoroso, evento de que ouvi falar em surdina, de modo impreciso, enquanto criança, e trouxe sepulto, no cerne da mente, até aos dias de hoje, foi a mola impulsionadora da decisão de escrever este romance, porque por nenhuma outra razão me atreveria a empresa tão arriscada.

Costumavam as mães, nos anos cinquenta do século passado, antes do cumprimento da norma obrigatória da missa do domingo, apressadamente, atamancar alguns padre-nossos e ave-marias, no cemitério de Emendadas, adjacente à Igreja Paroquial. Quedavam-se frente a cada campa onde morasse familiar benquisto, não se esquecendo nem dos avós nem dos bisavós, muito menos dos pais e irmãos. Detinham-se por mais tempo defronte da sepultura de algum filho pequeno que não tivesse sobrevivido a doença sem médico ou epidemia sem cura. Então, quando acontecia, por mero adrego, passarem pela campa de Caim, com alguns filhos pela mão, usavam dizer-lhes, depois de se assegurarem que não estava ninguém por perto, de modo ciciado:

-Não olheis prali, meus meninos, que está ali enterrado um home ronhe.

Era assim que, reiteradamente, manifestavam o seu repúdio pela presuntiva crueldade daquele morto, personagem secundária deste livro, inumado no canto amaldiçoado do cemitério, sem merecer o benefício da cruz, nem lhe dispensarem um pingo de água benta sobre a cova.

Mas não foi por Caim, sepultado sem missa nem padre, que me atrevi a contar as peripécias desta aventura decorrida em dois continentes. Fi-lo pela memória de Abel, supostamente sua vítima inocente, cujo corpo ali encontrara morada também, a bem poucos metros do outro.

Abel é verdadeiramente a personagem central desta minha criação, um menino de Emendadas, levado ao interior de S. Paulo e aí deixado, numa fazenda de café, ao cuidado de um tio. Os que haviam de lhe seguir o rasto, mais tarde, esperavam que desse gente e lhes abrisse caminho na lonjura de uma fazenda paulista, apesar dos seus dez anos por fazer.

Cruzar-se-ia com namoradas, por lá, quando lhe viesse a idade apropriada, mas não se agarraria, firmemente, como lapa se prende a rochedo, a nenhuma, por assim ter decidido ou por assim ter calhado, ou até por se ter deixado guiar por cabeça alheia.

Tinham-lhe ficado quinze anos, no Brasil, quando, já meio depenado, regressou, para não mais voltar, julgando que voltaria. Quem ficou lá para sempre, na região onde nascera, senhora do seu destino, foi a sua namorada da verdura da adolescência, a prelúcida Chiquinha, fiel a um projeto de vida grandioso. Por isso ela é a segunda personagem mais importante que aqui retrato, a rapariguinha espevitada dessa fazenda, que não podia ficar de fora deste romance que desenvolvo à roda de dois seres que se cruzaram e descruzaram, ainda imaturos, sem nunca mais se recruzarem, em vida.

O leitor, no percurso das páginas deste livro, perceberá melhor as razões porque jamais obliteraria a determinada e audaz Chiquinha, da passagem atribulada de Abel por este mundo. Nem tampouco, no contexto da caminhada infortunada deste português abrasileirado, a relegaria para um papel secundário. Porque, na verdade, se as vidas de ambos se descruzaram, a sombra dela sempre pairou, imperecível, no âmago de Abel. Certo que imersa por muitos anos na profundeza do seu ser, ela reemergiria como tábua salvífica, à tona dos seus pensamentos, sobretudo nos momentos mais tormentosos da sua vida.

No grande fluxo migratório para o Brasil, registado entre meados do século dezanove e o início da Segunda Guerra Mundial, muitas pessoas de Emendadas se abalançaram, primeiro em barcos à vela, assustando-se sob perigosas procelas; depois em grandes e seguros vapores, até aos portos do Norte e do Nordeste, do Rio de Janeiro, de Santos, de Paranaguá e de Porto Alegre. Alguns iam muito novos, pela mão de tutores, fossem eles familiares ou amigos confiáveis; outros afoitavam-se já maduros, sozinhos, à procura de novo rumo, deixando tudo para trás.

Abel é o nome fictício do rapazinho nascido em Emendadas, quase a findar o século dezanove, que percorreu um caminho, de cá para lá e de lá para cá. Podia ter ficado por aquelas bandas, mas deixou-se tomar de amuos injustificados, voltando ao lugar de onde tinha provindo, sítio seguro e previsível, como julgava. Mas o pior perigo é o que não é previsível, especialmente quando advém de um plano forjado pelo nosso semelhante, congeminado até no reconditório mental de quem menos esperamos, nesse território secreto onde pode ser concebido tanto o mais nobre gesto como o ato mais abjeto.

António Carvalho

______________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28277: Agenda cultural (899): Feira do Livro do Porto 2026: apresentação do romance do António Carvalho, "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp.), sábado, dia 29 de agosto, às 16h00, nos Jardins do Palácio de Cristal, Lago dos Cavalinhos

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28277: Agenda cultural (899): Feira do Livro do Porto 2026: apresentação do romance do António Carvalho, "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp.), sábado, dia 29 de agosto, às 16h00, nos Jardins do Palácio de Cristal, Lago dos Cavalinhos

 



Ilustração: © Feira do Livro do Porto 2026 (com a devida vénia...)

 
1. O nosso camarada António Carvalho vai fazer a apresentação do seu romance "3 x 44:  Abel e Caim em Contrapé" (Porto: Vida Económica, 2026, 288 pp. ) na Feira do Livro do Porto 2026, evento cultural que começa hoje, 21 de agosto e termina em 6 de setembro de 2026.

É organizado pela Câmara Municipal do Porto, nos Jardins do Palácio de Cristal. Conta com a presença de 144 stands,  entre editoras, livreiros e alfarrabistas.

O António Carvalho espera pelos seus leitores, entre eles muitos dos seus amigos e camaradas da Guiné, e muito em especial os da sua tertúlia, o Bando do Café Progresso, além dos seus conterrâneos de Medas, Gondomar.

Local, data e hora:


Além do autor, a sessão conta com a presença de João Luís de Sousa, António Viilar, e Castro Guedes. 

Vd. aqui o mapa da feira, e a localização do Lagos dos Cavalinhos e do stand nº 110 (Vida Económica).

Capa do livro, publicado pela editora Vida Económica, com apoio da Fundação Hermínia Vilar  Ribeiro. 


O António Carvalho, e a esposa, Maria de Fãtima, na sessão de lançamento do seu livro, no passado dia 11 de julho, na quinta  da Fundação Hernínia Vilar Rodrigues, em Medas, Gondomar, que teve mais de 8 dezenas de presenças. 

Foto: Página do Facebook da Vida Económica (11 de julho de 2026, 15h00) (com a devida vénia...)

____________________________

Nota do editor LG:

Último pposte da série > 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28276: Agenda cultural (898): "Ilha de Santa Maria: Recortes da História de um Povo", novo livro de Arsénio Puim (Ponta Delgada, Letras Lavadas, 2026, 135 pp.)

terça-feira, 14 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28182: Notas de leitura (1939): Prefácio de António Vilar ao livro "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.)




O lançamento do livro do António Carvalho, em Medas, Gondomar, foi uma das primeias atividades da recém-criada Fundação Hermínia Vilar Ribeiro (FHVR).


1. O António Vilar, presidente do conselho de administração da Fundação HVR, fez questão de escrever e assinar o prefácio da obra. Eis o texto que nos chegou, por mão do nosso camarada António Carvalho:

Apresentação

Só duas palavras…

ou três, talvez, no sentido de, além de agradecer o honroso convite do Autor deste livro, o Sr. António Carvalho, amigo e vizinho de há décadas, para prefaciar este seu livro dizer também, o quão valioso é este seu novo escrito para divulgar o passado recente desta terra, Medas (Gondomar), debruçada sobre o majestoso rio Douro, a cerca de 20 kms do Porto, mas tão esquecida nas suas generosas gentes e no seu contributo sacrificado para o bem-estar de outros (as minas , a carqueja…).

António Carvalho é alguém do povo, de vida simples, mas com um coração voltado profundamente para a sua terra, os seus costumes, dramas e as histórias que a marcaram no passado recente, com o que vai contribuindo para a pôr no mapa de uma região e de um país que, tantas vezes, começa e acaba na Capital, nas capitais deste mundo onde o Poder e o dinheiro são os deuses de serviço. Medas também é Portugal e não tem medo de existir. 

Obrigado, António Carvalho, por nos legar as memórias desta terra e dos seus cidadãos e sobre como eles caminharam entre as maiores dificuldades sociais e societais e…a Esperança, num tempo que é, hoje, não de transição, mas de rutura, mas em que não podemos deixar de lutar por um Mundo melhor.

O livro que singelamente ora prefacio, nasceu, creio bem, de uma curiosidade inabalável do seu Autor, da sua vontade indomável de serviço aos outros e, inequivocamente, da sua necessidade de deixar escrita a voz dos seus antepassados (e contemporâneos), nas suas aspirações e desventuras, para que o tempo não se cale para sempre.

O tema do livro, que também bebe da rica imaginação do Autor, não é apenas o passado, antes, se entrelaça com o presente (e o futuro?) no que revela da natureza humana. “O que é já foi e o que há-de ser também já foi” (Ecclesiastes. 3:15).

Na aparente simplicidade (culta) da narrativa, encontramos a Vida a pulsar, feita de alegrias e de tristezas, de entrelinhas , de silêncios, de partidas e de regressos infindos. Com a devida vénia direi que, às vezes, me veio à ideia, o grande Camilo Castelo Branco, enquanto parava, na leitura, de algumas passagens da escrita de António Carvalho. Terei razão?

Não sei, mas os conflitos humanos, os dilemas morais, as emoções e paixões do quotidiano humano não são muito diferentes. É a Vida.

Com este seu novo livro, António Carvalho deixa uma herança que há-de preservar Medas na história do país profundo, a qual há-de continuar a falar quando o tempo já não se lembrar de nós. (**)

António Vilar, Julho 2026

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)

2. Comentário do editor LG:

António Vilar é uma figura de referência da advocacia portuguesa e europeia. Nasceu no Porto em 1952. Exerce a profissão em regime liberal desde 1978 com escritório no Porto. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. É igualmente uma figura de referência na social-democracia portuguesa, com intervenção pública e intelectual marcante. Discreto, mas frontal,  tem, também, um notável percurso académico e obra publicada.

Instituiu recentemente a Fundação Hermínia Vilar Ribeiro com sede na Quinta do Carreiro, Estivada, Medas, Gondomar,  com o o objetivo de promover a solidariedade social, com especial atenção para: (i) longevidade e envelhecimento ativo; (ii) diálogo intergeracional; (iii) atividades culturais e de lazer que entrelaçam memórias, costumes e contemporaneidade

______________

Nota do editor LG:

(*) Poste anterior da série > 13 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28180: Notas de leitura (1938): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (4) (Mário Beja Santos)

(**) Vd. postes anteriores: 
 

12 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28176: Notas de leitura (1936): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): dois continentes, dois destinos (Luís Graça)

domingo, 12 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28177: Notas de leitura (1937): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): "O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e, pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América." (Angélica Lima, escritora e ediucadora brasileira)


Angélica Lima,  Fonte: Linkedin

1. Texto da doutora Angélica Lima, lido por ela na sessão de apresentação do livro do nosso camarada António Carvalho, ontem em Medas, Gondomar (*) (cortesia da escritora,  brasileira, cuja foto, do Linkedin, reproduzimos aqui à direita):


Boa tarde a todas e a todos.


Quero começar agradecendo ao autor, António, pelo generoso convite para estar aqui com vocês neste momento tão especial, que é o nascimento público de um livro.

Agradeço também a confiança ao me permitir ler esta obra antes de sua publicação e ao me convidar para compartilhar algumas impressões de leitura.

Agradeço igualmente a presença de todos os que escolheram participar desta celebração literária, num tempo em que tantas vozes artificializadas disputam diariamente a nossa atenção.

Vivemos cercados por telas, notificações e estímulos constantes. Já existem estudos mostrando que esse excesso tem reduzido a nossa capacidade de concentração, de reflexão e até da criatividade.

Um livro impresso continua a nos oferecer algo cada vez mais raro: silêncio, tempo, autoescuta e reflexão. Mas, sobretudo, continua a nos lembrar da importância de exercitar aquilo que faz de nós essencialmente humanos: a nossa capacidade de pensar, de imaginar, de viajar. E, diferente das máquinas, fazemos isso enquanto lemos.

Esse convite específico me fez perceber que ler um romance e falar sobre ele num lançamento são experiências muito diferentes.

Ler é um encontro íntimo e silencioso entre o livro e o leitor.

Hoje, esse silêncio ganha voz.

Antes de entrar propriamente no romance, gostaria de compartilhar com vocês o lugar de onde falo hoje.

Ao receber o convite para ler este romance antes da publicação e depois, apresentar minhas impressões no dia do lançamento, minha primeira reação foi de surpresa.

Nunca havia participado de uma apresentação de livro como oradora convidada. Isso me deixou, ao mesmo tempo, feliz e consciente da responsabilidade que estava assumindo. Por isso, diante do público, para eu não ter aquele momento de mudez ou daquela tosse, que na verdade é um misto de vergonha e ansiedade, preferi trazer minhas anotações.

Gosto de acreditar que cada romance encontra novos sentidos quando é lido por pessoas diferentes. Um livro deixa de pertencer apenas ao autor quando chega às mãos dos leitores, e cada leitura lhe acrescenta uma nova camada de significado, muitas vezes até diferente daquela que o próprio autor pensou. E o texto vai ganhando outras dimensões.

 O olhar que compartilho hoje é apenas um dos muitos possíveis.

Falo como leitora, mas também a partir de uma circunstância muito particular.

Sou brasileira, paulistana, isto é, nascida em São Paulo – capital, não no interior, como, por exemplo, Santa Rita do Passa Quatro, onde, se nascesse, seria paulista. Se esse livro fosse lançado no Brasil, essa informação seria um motivo de bairrismo. Mas, é apenas uma informação para situar o espaço. Vivo atualmente em Portugal.

De certa forma, essa condição acabou me aproximando do protagonista, Abel, que também realiza uma travessia, embora em sentido inverso ao meu.

Ao acompanhar a sua viagem para o Brasil, procurei não buscar semelhanças nem diferenças entre os dois países. Preferi deixar-me conduzir pelas idiossincrasias que o romance vai revelando: esses pequenos gestos, modos de falar, de sentir, de relembrar e de viver que constroem a identidade de um povo e, ao mesmo tempo, tornam cada personagem única.

Ao longo da leitura, também fui observando como uma mesma língua pode aproximar dois países e, ao mesmo tempo, nos surpreender pelos diferentes sentidos que uma palavra pode assumir de um lado e do outro do Atlântico.

Foi essa travessia, feita por meio da linguagem, da memória e das personagens, que procurei acompanhar o protagonista e suas peripécias ao longo da leitura. Fui tentando perceber como Abel transporta com ele a sua memória, a sua língua, os seus afetos e a sua identidade quando atravessa um oceano e vai viver em outro continente. E fiz essa leitura refletir sobre a minha própria experiência enquanto imigrante.

Então, é desse lugar, ao mesmo tempo próximo e distante, que convido vocês a percorrer comigo algumas páginas deste romance.

Não como crítica literária, porque não sou, nem como especialista, mas simplesmente como uma leitora que teve o privilégio de caminhar por estas páginas antes que elas encontrassem vocês, seus futuros leitores.

Imaginei encontrar um romance que me conduziria pela história. Descobri, porém, que antes da história havia uma língua inteira à minha espera a ser atravessada. Foi logo de cara que percebi: preciso de um companheiro para fazer comigo essa viagem – o dicionário.

Há romances que não se deixam atravessar à pressa; devemos percorrê-los num barco a vapor ou num rabão à vela.

Este romance não se deixou ler rapidamente. Comparo essa leitura, com a chegada numa cidade do Brasil por onde nunca houvesse passado antes. Porque no Brasil é assim: até mesmo para nós que lá nascemos, muitas vezes desconhecemos o modo de falar de uma cidade que fica ao lado ou a cinco mil quilômetros. 

Chegando lá, compreendemos o geral, mas não os pormenores. E essa leitura trouxe a sensação de estar diante de uma grande diversidade de paisagens, cores e linguagens, onde o pormenor ficaria encoberto, se eu não decifrasse os regionalismos, os termos tão interessantes escolhidos por António.

Um dos aspectos que mais me surpreendeu no texto é o fato de o António usar períodos longos, sem cansar, às vezes, numa cadência quase oral e, em alguns momentos, pensei que ele usava os regionalismos semelhantes ao modo que Guimarães Rosa faz em "Grande Sertão Veredas".

A minha travessia foi assim: enquanto Abel conhecia os sabores do Brasil, eu viajava pela cozinha portuguesa.

Enquanto Abel se espantava com a paisagem exótica do Brasil, eu me encantava com a simplicidade e dureza da vida rural em Portugal.

Enquanto Abel aprendia o sotaque de se abrasileirar, como disse o autor, eu mergulhava no dicionário e viajava pela língua portuguesa.

Não porque a leitura fosse inacessível, mas porque o autor recupera um património linguístico extraordinário, fazendo-nos descobrir palavras que, muitas vezes, já desapareceram do nosso uso quotidiano. E palavras que eu realmente nunca tinha ouvido, mesmo morando aqui há quase 10 anos, mesmo sendo filha desse nosso idiomaterno.

Ao longo da leitura, fui percebendo que, com esse vocabulário, em vez de contornar as palavras desconhecidas, eu precisava entrar nelas.

Isto surpreendeu-me: a quantidade de verbetes escolhidos pelo autor que, sozinhos, dão origem a outro livro. No meu manuscrito, marquei mais de 250 termos, palavras, passagens em que eu precisei parar, desembarcar, e só depois, continuar a viagem.

Destaco apenas algumas palavras ou frases:

  • Sair pelas portas fronhas   – essa frase eu fiquei encafifada, fronha para mim é outra coisa;
  • Caminhos de pé posto – que achei muito interessante;
  • Dealbar – fiquei encantada com essa palavra.
Esses são exemplos de palavras lindas e, para mim, completamente desconhecidas.

Sobre as personagens? Vou me ater ao Abel e à Eva.

Abel acaba por abraçar o sonho de ficar rico ou melhorar de vida, por meio do seu trabalho, mas abraça, especificamente, o sonho do seu pai e é levado por ele, ainda muito menino, ao Brasil para assumir funções de homem.

Abel e Eva escondem a sua verdadeira paixão, a ambição. Mas essencialmente, a luta contra a miséria.

Sobre a personalidade de cada um, conforme vocês vão lendo a história, poderão refletir se Abel representa o homem do século passado, mas que tem nele, uma espécie de mofo que ainda está impregnado nas sociedades até hoje. 

Conforme a narrativa cresce, as personagens mostram a sua verdadeira cara. Eu gostei muito do Abel, mas, no fundo, eu tenho grande compaixão pela Eva e pelo que ela representa, por isso escolhi essas duas passagens sobre as mulheres desse romance, me perdoem os ouvintes, mas vou ser breve:

(...) "A repenicada moça do Porto não era propriamente uma daquelas carquejeiras de mãos encortiçadas, que durante anos e anos subiam 
ajoujadas sob feixes de carqueja e queiró de três a quatro arrobas, a Calçada da Corticeira, para alimento dos fornos das padarias da parte alta da cidade. Eva tinha um estatuto social mais elevado do que o dessas mulheres calçadas de socos e pele tisnada a subir a ziguezaguear o calvário de duzentos metros que pareciam nunca mais acabar. Mais do que um calvário (que me perdoem os cristãos mais sensíveis) os itinerários que estas mulheres (algumas com pouco mais de dez anos) faziam até à lonjura de Paranhos e Carvalhido, eram autênticas vias sacra."! (...)


Ou essa:

(...) "Enquanto passava ligeira e empertigada, com estes sinais distintivos, envaidecida pela concupiscência dos olhares masculinos, as outras, atarracadas sob o peso dos desmedidos feixes, mostravam-se alquebradas, na postura como na mente, como se aquela tarefa ciclópica durante seis dias da semana, encosta acima, debaixo de carregos maiores que o corpo, em passada lenta, retornando encosta abaixo, de vazio, a pé ligeiro, as tivesse marcado, na pele e na alma, de modo irreversível." (...)

O romance transporta-nos para o espaço descrito, a paisagem é magnífica, tanto de Portugal como do Brasil. Com muitos detalhes que tornam o texto belíssimo. O autor vai contando causos, resgatando fatos históricos e momentos culturais fantásticos. A paisagem, com isso, participa da história.

O tempo que o autor usa, do meu ponto de vista, apesar de parecer linear, é não linear, é simbólico. É uma história contada em camadas, símbolos e memórias. E os detalhes dessas memórias são de uma delicadeza poucas vezes encontrada.

Ao mesmo tempo, não deixa de ser um romance histórico, para além da própria história contida, que se estende por mais de 30 anos. Nela, o tempo cronológico se mistura ao tempo social, psicológico e simbólico, como nessa passagem:

(...) "Por uma alta torre dotada de sinos que se ouvissem no vale mais profundo da freguesia e relógio de grandes algarismos e ponteiros que se divisassem ao longe. Todos os presentes convergiam quanto à prioridade da torre da igreja, que marcaria as horas dos trabalhos nos campos, dos momentos fulcrais dos actos litúrgicos, dos baptismos, comunhões e casamentos, e as desoras dos que morriam." (...)

Entre os símbolos, quero destacar a água que é um símbolo de travessia. A água faz parte da vida de Abel, no Rio Douro, nas travessias pelo mar, e em outras situações que o envolvem, a água aparece como um sinal de vida, de esperança e de tragédia.

Há muitos símbolos e metáforas religiosas, mas só nessa parte, eu gastaria mais de uma hora a falar e o objetivo é o silêncio da leitura.

Entre os temas que aparecem — e são muitos —, vou destacar apenas dois que estão muito na moda. A imigração e as classes sociais, muito bem retratadas no texto, ao pormenor, e um que é o mais importante do meu ponto de vista, a linguagem, como nestas passagens:

(...) "Eram os melhores ideólogos por esses dias o padre, o presidente da junta, o regedor, o professor e os que calçavam sapatos à semana. " (...) 

(...) "Os sapatos que o seu pai encomendara, para esta viagem, a um sapateiro de Emendadas, sobravam-lhe igualmente nos pés, mas assim deveria ser para lhe dar para mais anos." (...)

Essas são passagens sobre sapatos; me remetem à infância e aos causos contados em casa pela minha mãe. “Nas fazendas, havia uma criança que ia à escola com um pé do calçado até gastar; depois, usava o outro”.

Há uma passagem que o autor relata sobre a língua portuguesa abrasileirada e isso é um dos destaques que eu também quis trazer:

(...) "Assim, sempre que confrontado com gente graúda, evidenciava, no modo como temperava as palavras e insistia no uso do gerúndio, o contributo que recebera de catorze anos passados numa fazenda de café, a abraseileirar-se." (...)

O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e,  pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América. Como não sou linguista de formação, como boa brasileira, achei curioso recordar que o gerúndio, tantas vezes apontado como uma marca do português do Brasil, não nasceu no Brasil.

 Trata-se de uma construção antiga da própria língua portuguesa, preservada entre nós brasileiros, enquanto Portugal foi seguindo outro caminho. Foi uma mudança gradual na fala portuguesa, mas foi o Brasil que manteve a originalidade da língua levada para lá.

E, entrando nos finalmentes, o que ficou em mim talvez seja o mais importante.

Para mim, este romance não fala apenas das travessias entre Portugal e o Brasil, entre o Atlântico e o Douro. Fala também das travessias humanas: entre a pobreza e a esperança, entre o preconceito e a dignidade, entre as escolhas que transformam uma vida e aquelas que acabam por cristalizar destinos.

Quando fechei o livro, algumas personagens permaneceram comigo. Eva, sem dúvida. Mas a personagem que mais me acompanha é Chiquinha. Talvez porque ela traga uma leveza inesperada para uma realidade tão dura. Sua presença parece lembrar que, mesmo nos períodos mais difíceis da nossa história, a humanidade nunca deixou de encontrar espaços de afeto, generosidade e esperança.

Ao acompanhar essa personagem, fui pensando que olhar para a história não significa apenas procurar culpados ou inocentes. Significa, antes de tudo, reconhecer que ela foi feita por seres humanos, com as suas grandezas e as suas misérias. 

Só quando temos coragem de reconhecer também as partes menos nobres da nossa história é que podemos construir uma sociedade mais justa, mais consciente e mais humana. É isso que o livro traz.

Há uma imagem que continua a regressar à minha memória: a chegada de Abel pela Serra do Mar. Enquanto lia essa passagem, revi-me adolescente, fazendo aquele mesmo percurso de trem em direção a Santos, num fim de semana. O trem pendurado pelos cabos, passando sobre o abismo, onde só se ouvia o barulho do trem. Foi um daqueles momentos em que a literatura nos devolve aos tempos da nossa própria vida.

E talvez tenha sido essa a maior transformação que esta leitura provocou em mim. Descobri que, neste romance, cada palavra carregava algo para além do seu significado imediato. Cada escolha do autor guardava uma memória, um símbolo, uma intenção. Muitas vezes eu me perguntava: Por que esta palavra e não outra? E, quando ia procurar o seu significado, descobria que havia muito mais por trás dela do que imaginava e ficava encantada.

O meu diálogo com este romance nunca foi uma análise nem uma crítica. Foi uma conversa, uma experiência.

Este livro levou-me de volta ao Brasil, à minha infância, ao colchão de palha, às quaresmeiras, ao Manacá-da-serra, à Serra do Mar, às viagens de trem para Santos, não ao Porto, à Praia Grande. A galinha com farofa. O sanduíche de pão Pullman com queijo e presunto. O ‘Guaraná’ sem gelo. Os farofeiros. Nome dado aos pobres que frequentavam as praias, mas não tinham dinheiro para almoçar ou lanchar nos restaurantes. 

É para isso que servem as histórias: para nos fazer encontrar, nas vidas dos outros, pedaços da nossa própria vida.

Por isso, termino dizendo que há romances que não se deixam atravessar com pressa. É preciso caminhar ronceiramente dentro deles. E foi exatamente essa a experiência que este romance me proporcionou.


António Carvalho: integra a Tabanca Grande
 desde 13/9/2008, e tem cerca de uma centena
 de referências no nosso blogue




Não posso revelar mais do que o próprio livro vai oferecer ao longo das suas páginas. Posso apenas dizer que esta leitura foi, para mim, uma verdadeira travessia pela memória e pela condição humana e principalmente, pela riqueza da nossa língua portuguesa, nosso tão amado idiomaterno.

Tenho certeza de que cada leitor encontrará também o seu próprio caminho dentro desta narrativa. Descobrirá as suas personagens preferidas, as palavras que mais o tocarão e fará, à sua maneira, 
 a sua própria travessia.

Parabéns ao António por esta obra e muito obrigada a todos pela atenção.

Obrigada, Angélica Lima.

Apoio estratégico para projetos acadêmicos e literários
Escritora|Ghostwriter|Ilustrações
Especialista em artigos, teses, dissertações e livros.
Ilustrações |  Palavras  | Sonhos (...)
https://lattes.cnpq.br/1870298303464362

(Revisão / fixação de texto: LG)

________________________